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Marli Gonçalves *
28 de fevereiro de 2009
São Paulo, cóf, cóf, cóf.
Reparou como todo mundo tem se sentido como se estivesse faltando alguma coisa, um pedaço, um ânimo? Não é só você. São insatisfactions - entende?Sei que entende, mas não é que para me aporrinhar a tal palavra correta, em inglês, é dissatisfactions?
Venho tentando definir os estados de espírito que tenho observado em mim e nas pessoas mais próximas. É um misto de descrença com desânimo. Insegurança por indefinição. Medo, temor, tremor. Profissionais competentes e de sucesso, inclusive financeiro, tirando períodos sabáticos, ou mudando de rumos, alguns em manobras radicais. Artistas conhecidos e lindos pirando na batatinha. Lideranças políticas e ideológicas jogando a toalha, subitamente covardes diante do mal instalado em vários nichos. É assustador.
Parece tudo muito chato, antigo, déjà vu, desinteressante. Para mim, pessoalmente, a sensação mais clara tem sido mesmo essa, a da insatisfação, das insatisfações. A melhor palavra que achei para definir, ou pelo menos tentar descrever. Mas quando paro para pensar, percebo que insatisfação é muito geral, embora uma instância interessante de inquietude. Para quem gosta de vibrar com tudo o que faz, é ainda doentio e arrasador - sem saber exatamente por que - começar a acordar com dificuldade, arrastando o corpo para fora da cama e a cabeça arrancada do travesseiro. A cama parece o melhor lugar do mundo, principalmente quando a sensação de um cansaço enorme está por perto. A libido vai junto por água abaixo, mas secando o que deveria ficar molhado, encolhendo o que poderia estar altivo. Essas são as descrições que tenho recolhido de quem encontro, aborrecido, por aí.
Amigos e conhecidos morrendo de repente, doenças estranhas ameaçando, dores que aparecem aqui; ali. Lá.
Para lembrar a tal condição e fraqueza humana, só pode ser. Males psicossomatizados, muitos, pelas "insatisfactions” - para ficar mais charmoso o assunto - do nosso dia-a-dia. Toma infartos, AVCs, gastrites, nervos, taquicardias, alergias e rinites de todos os tipos, perebas, além dos venenos correndo no sangue. Fora os antidepressivos indispensáveis. E o povo pirando, em todas as idades, matando outros e sacaneando, brigando, arrumando um forrobodó para descontar.
O tal sentido da vida está todo embaralhado. Pode ser a crise, pode ser o fim da década se aproximando, pode ser o excesso de informações, umas atropelando outras, enchendo os arquivos dos cérebros, já às voltas com senhas e pressões. Pode ser a desesperança, essa danada, que nos dá tanta preguiça, tanta falta de vontade de reagir. Mais uma vez? Para quem, por quem, para quê? Quem estará comigo? Valerá?
Esperam de minhas costas largas as soluções? Poucos se prontificam para o abate na linha de frente. E os que não forem, acharão o resto de suas vidas que deveriam ter ido, mas cadê coragem? Cadê condições? Cadê os parceiros? O círculo é vicioso e solitário, além de extremamente silencioso e corrosivo. Particularmente, debaixo do chuveiro (um bom lugar para pensar sossegado), penso como cada um deixa a água e o sabão lavarem todas as suas partes, numa dança toda particular e muito íntima. Pedimos para a água levar para o ralo engolir bem engolido os nossos medos, as nossas doenças, nossas fraquezas e frustrações. Dali, saímos tal qual autômatos, para mentir e sobreviver. Tudo bem?- Tudo bem! Mais um dia, mais uma noite, mais um dia...
E que tudo seja assim, bem superficial. Enfim, em quem confiar, já que as tripas grossas estão mesmo engolindo as finas, como dizia minha mãe, mineiramente?
Adoro o que faço, seja lá o que for, porque senão o problema seria mais sério, uma vez que não consigo fazer, ou pelo menos fazer direito, se não adorar. Aí esbarro naquele probleminha: às vezes não dá mesmo para escolher, não é mesmo? Assim, às vezes nos violentamos, ou somos violados, consentidamente. Mas isso também não é novidade.
Suponho que a novidade de hoje esteja sendo a falta de padrão comportamental. De um fio condutor ético, culturalmente adquirido, mais delineador dos espaços de um e de outro, todos dentro do mesmo mundo. Tomados pela visão maniqueísta do bem e do mal, não vêm sobrando opções mais confortáveis e motivadoras. Brigamos pelo sim e pelo não, esquecendo o pode ser e o talvez.
Já que estamos falando de insatisfations, dissatisfactions acredito realmente que estamos esquecendo outro sinal, outro alerta, e vou de novo recorrer à língua inglesa:
- Stop. |