Samaúma
 



 

 



 

* Marli Gonçalves, jornalista. Já teve de andar com quatro celulares ao mesmo tempo. Por hábito adquirido durante a ditacuja sabe sempre quem está atrás, na frente, e dos lados. Às vezes pelo retrovisor.

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Brecheiros


 

 

Marli Gonçalves *
15 de abril de 2009



São Paulo, dias muito vigiados de 2009.

 

 

Bisbilhoteiros: é isso o que eles são, e eu bem gostaria de saber o que tanto fazem com toda a informação que obtêm. É o fim do beijo roubado no elevador, da espinha espremida no espelho e até da coçada de saco. Como será que vão impedir o "cigarrinho" do depois?

 

 

Todo mundo sendo bisbilhotado, espiado, ouvido. Está acontecendo no mundo inteiro. Além de câmeras, aqueles olhos sem íris que mexem os pescocinhos até para te ver passar, ainda tem sempre "um boi na linha”. Oficial ou extra-oficial. Lembra que assim chamávamos as rotineiras intromissões que ocorriam nos telefones, as linhas cruzadas? Era engraçado ficar ali, quietinho, ouvindo as conversas de outros que não tínhamos a mínima idéia de quem eram. Pra sacanear às vezes dávamos até palpite, quando era alguma discussão, alguma rusga, que precisasse de um conselho. Aí os caras ficavam bravos, muito bravos!

E o negócio vai piorar, escutem o que estou dizendo. Não tem nem mais essa de buraquinho na parede do vestiário para ver as meninas. Agora escracharam de vez. Tem aficionado que instala um verdadeiro estúdio de tevê direta, ao vivo, nos banheiros. Outro dia teve um caso desses em um cruzeiro marítimo. Invasão de privacidade perde. Olheiros de binóculos, coitados, andam fora de moda. Precisa segurar, regular, e binóculos e lunetas, diferente das maquininhas digitais com superfoco, não registram as cenas. Arcaicos, dependem das pessoas, individualmente, do que sua atenção vê. Coisas do tempo do onça, igual a gravador com fita K-7, outro objeto injustamente aposentado. Ainda, confesso, não consigo confiar em gravações digitais.

Sofisticaram a bisbilhotice de tal forma que às vezes, diante de uma vitrine de loja, você pode chegar a ter a sensação que estão gravando seus comentários, para depois te estudarem e formularem o santo dos comerciantes, o comprador, o consumidor ideal. Um dia, estou dizendo, o negócio vai sofisticar de tal forma que é capaz de as modelos das vitrines criarem vida e falarem com a gente quando damos aquela paradinha na frente delas:

- Entra amiga! Compra esse vestido aqui. Lembra que hoje à noite, às 21 horas, você tem marcado um jantar que tem que ir com o seu marido. Você, ele, o chefe dele e aquela empolada e metida esposa do chefe?

- Hei, o senhor aí! Pensa que ela gostou daquelas panelas? Agora, entre já e compre essa lingerie!

Um terror pensar nisso. Mas não está longe. Vocês pensam que cartão de fidelidade de supermercado serve para o quê? Vai se acostumando.

Mas também não precisa exagerar. Tem pombo voando com celular. Podem resolver treinar os urubus e as maritacas, novos habitantes das grandes cidades, para te bombardearem com microchips especiais, grudados junto com aquela pataca displicente que você deixa secar na janela.

Ursinhos fofoletes de pelúcia já servem para gravar com seus próprios olhos as babás bruxas más. Bonecas de pano já contiveram armas e drogas em seus recheios cheirosos. Coisas para Chucky, a Noiva do Chucky e todos os seus parentes não acharem defeito.

O que dizer, então, dos sistemas de segurança que alguns prédios têm se imposto? No seu apartamento, você liga a tevê e ZAP! Lá está a portaria. Ihhh, aquela vizinha chata tá lá enchendo a cabeça do zelador. Como ela engordou. Deve estar doente. Hummm... Quem é aquele gatinho ali? Será que mora aqui?

Segurança, isso serve? Então conecta a mais velha e ou desocupada do prédio no circuito e com a polícia. E a escalem para o plantão.

Não adianta. Quanto mais chamam a atenção, instalam máquinas e não treinam os homens, mais insegurança. Uma boa tesoura nas mãos dos inimigos corta num piscar de olhos esses circuitos, fácil, fácil. E olha, eu gosto de maquininhas e invenções. Sou igual criança, gente. Outro dia peguei carona num desses carros modernos no último tipo. Quando se engata a ré, uma câmera automaticamente se liga e mostra tudo; o carro detrás, a manobra que deve ser feita. Falta falar. E ainda apita!

Aliás, usar a palavra apitar me fez lembrar de outro problema que anda monopolizando corações e mentes e não vai demorar a sair uns socos. Os coitados dos fumantes, eu inclusa, que querem pitar seu cigarrinho sem incomodar, mas também sem serem perseguidos ou caçados. Pânico! E se resolverem tatuar os fumantes, marcá-los com queimaduras? E se quiserem colocar coleira, tipo aquelas de prisão? A minha, quero no pé, um charme, de tornozeleira e, de preferência, de ouro. Obrigada.

A conversa está ótima, mas tenho de voltar ao tema inicial. E enfim, ele não tem nenhuma graça quando nos pegamos parecendo bobos monossilábicos ao telefone, mesmo quando falamos com amigos que nada têm a ver com nossa atividade, quando andamos assustados com a constante sensação de "tem boi na linha" de nossas vidas. Não tem graça. Nem aqueles detetives de paletó xadrez têm graça.

Uma vez numa praia naturista da Paraíba ouvi pela primeira vez a expressão "brecheiro". Trata-se daqueles cidadãos que ficam atrás de árvores, na mata, em cima dos morros e falésias vendo o povo passar pelado ou esperando se a coisa não esquenta. É um tipo natural do lugar, uma coisa até ingênua, típico do voyeurismo humano. Desde que, claro, o brecheiro fique lá. No canto dele. Tentando ser invisível.

Só que os brecheiros modernos, da tecnologia, têm se manifestado, e perigosamente, de forma absurda. O que é pior é que estão arregimentando um monte de energúmenos ignorantes para os apoiarem.

Vão matar a liberdade. Vão matar a vida privada. O que é pior: já estão matando até o desenvolvimento da comunicação, via celular, via e-mail.

Estou de olho. Se liga também.