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Marli Gonçalves *
11/nov/2008
Conversa sobre a liberdade de nossos pensamentos
Eu, já. Veja bem: sumir não é morrer, nem querer morrer. Ao contrário. E ter a vontade não significa que vá fazer isso, uma vontade que acho que todo mundo já sentiu, e evita muito falar e pensar. Mas como o pensamento ainda é o que temos de mais livre... Nele, podemos, tecemos nossos sonhos mais loucos, alguns com direito até a realização, em detalhes. Pensamento não gasta dinheiro! Pensamento ninguém grampeia! Pensamento não tem limite, não tem dono, não tem regra. É uma exclusividade nossa. Dá para se imaginar desde vivendo outra vida a uma praia paradisíaca; uns dias em um cruzeiro pelas Ilhas gregas, qualquer coisa. Sem gastar um tostão e sem sair do lugar. Até porque ter vontade de sumir também pode ser uma coisa muito estranha, o que é bom evitar, já que é depressão pura. E a vontade também pode vir apenas de um desânimo com tudo o que os olhos vêem, os ouvidos escutam, o coração sofre. Quando o negócio começa a desandar, puf!
Esse tema me ocorreu depois de assistir a uma reportagem de alta tecnologia no qual a repórter, nos EUA, surgia em um holograma diante do apresentador, tal e qual nos filmes e seriados de ficção, como Jornada nas Estrelas. Estar aqui e surgir ali. Se materializar em outro canto.
Perguntei para muita gente essa semana. Todos já tinham tido vontade de sumir, embora evitassem pensar muito no assunto. Alguns tentaram até fazer cara de surpresa antes de assumir que sim, tinham pensado – se pudessem! Imaginem se tivéssemos um poder desses de teletransporte. Ia ter trânsito, muito trânsito. Já ia ter gente querendo fazer rodízio, RGs terminados em 1 e 2 não podem sumir às segundas, senão tomam multa pesada, iam inventar alguma taxa de teletransporte, algum imposto. Não, isso seria um pesadelo e é melhor sonhar. Estou vendo você aí, com um sorrisinho cínico, pensando que se tivesse esse poder talvez o usasse, sim, e o aplicasse em outras pessoas. Seu chefe? Seu marido? O ministro da Justiça? O Lula? O Secretário de Segurança do Rio de Janeiro? E o Mantega? Ih, essa lista seria grande mesmo.
Melhor voltar a pensar que você poderia deixar para trás, nem que seja por alguns momentos, as barbaridades que está vendo à sua frente. As coisas estão difíceis. O progresso e a tecnologia desenvolvem-se rapidamente, mas parecem mais voltados ao consumo do que ao fim dos grandes males que assolam a sociedade, das doenças e mosquitos danados que não conseguimos debelar às trapalhadas dos dirigentes, muitos deles que deveriam cuidar, no mínimo, dos tais mosquitos.
Temos IPOD, IPHONE, Wireless, mas ninguém ao menos assegurou que o nível da radiação das antenas e estações não atinge nossa saúde.
E ultimamente é comum ficarmos doentes, muito doentes, de stress, essa palavra tão moderna, tão abrangente, mas que vem sendo muito usada em diagnósticos médicos. “Ah, bom! Stress. E isso tem cura, doutor?”
Tem não, só se sumir. Como não ficar nervoso diante de uma crise mundial que atinge até os maiores países do mundo e que tira dinheiro da carteira até de milionários que julgávamos intocáveis? Como não se preocupar quando os entes queridos estão longe de nossos olhos, nas ruas, possíveis vítimas e alvos da violência das balas perdidas, da loucura humana, dos ódios, das guerras, e até de seus próprios atos?
Como não se preocupar com os filhos? Não os tenho, mas acho que enlouqueceria só de pensar em que escola, que método, na formação de seu caráter, como livrá-los de inimigos, pedófilos, das drogas fajutas, da música vagabunda, dos cacos de vidro, sem tolher sua liberdade e o direito deles, tão importante, de quebrar a cara, como nós?
E as dívidas, cidadãos comuns? Preocupada com elas, conversando com um banqueiro amigo, ouvi: “Pague quando puder. Se não recebo, não posso pagar. Esse é o ciclo”, tentou me explicar. Escutei aquilo embevecida. Contudo, teimosa, continuei a conversa, e descobri que ele não tinha a menor idéia – aliás, numa boa, que isso é coisa só de gente como a gente, nunca tinha ocorrido a ele o que fazer (e que a vida real é assim) com a multa, a correção monetária, cartório, nome sujo, falta de crédito, corte de serviços. “Então, pague só isso: água, luz, telefone e gás”, ele aconselhou, sério.
Viu? Dá vontade de sumir. Mas a gente não pode e nem consegue. Dia após dia nem mais temos tempo de sonhar – as horas e os dias passam lépidos, deixando aquela sensação do irritante, mas clássico, jingle da Jovem Pan, a “Sinfonia de São Paulo”, do genial Billy Blanco:
“Vambora, vambora, tá na hora, na hora!”
Ou do trecho do poema de Mário Quintana, que uma amiga acaba de me enviar:
"Quando se vê, já são seis horas;
quando se vê, já é sexta feira;
quando se vê, já terminou o ano. Quando se vê, perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê, já passaram-se 50
anos! Agora é tarde demais para
ser reprovado.
Se me fosse dado, um dia, outra
oportunidade, eu nem olhava o
relógio. Seguiria sempre em frente e iria jogando, pelo caminho, a casca dourada e
inútil das horas”(...)
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