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Irm. Marcos Coimbra
Tivemos
a honra de ter como chefe, em meados da década de 80, na
Escola Superior de Guerra, o coronel Paulo da Motta Banha, infelizmente
já falecido. Discutíamos muito sobre os problemas
brasileiros com os outros companheiros e, invariavelmente, a conversa
enfocava o agravamento da situação econômico-financeira
do povo brasileiro. Defendíamos a tese de que, com a deterioração
progressiva das condições de vida, haveria o iminente
risco de uma convulsão social, com graves conseqüências
políticas.
O experiente coronel Banha afirmava que nada ocorreria, pois o povo
brasileiro iria acostumar-se à pobreza, restringindo cada
vez mais o seu consumo, com a crescente queda do poder aquisitivo,
e tudo permaneceria sem mudança. Não aceitávamos
sua tese, argumentando que era impossível o povo submeter-se
à semelhante humilhação, pobreza e miséria.
Hoje, reconhecemos que ele estava certo.
Nestes últimos dez anos, com a implantação
do famigerado plano Real, diagnosticamos a piora da situação.
Evidentemente o setor financeiro foi o mais bem sucedido de todos,
auferindo mais de R$ 50 bilhões de lucros, no citado período.
Dentre as dez empresas mais lucrativas, quatro são bancos
particulares (o Banespa foi privatizado).
Ganham aquilo que querem, como desejam, sem maiores controles. Afinal,
o órgão encarregado de fiscalizá-los é
justamente o Banco Central, atualmente sob o comando de um banqueiro,
ex-presidente do Bank of Boston, membro do Diálogo Interamericano,
capaz de receber uma aposentadoria, em dólares, de valor
superior a R$ 200 mil mensais.
A classe mais rica ganha novos membros, em função
da diminuição do padrão de vida dos demais.
São 80 mil integrantes da "elite dominante", engrossados
com o ingresso de novos 5 mil componentes no primeiro ano da administração
Lula. Nesses dez anos, a carga tributária aumentou de 26%
para 36% do PIB, podendo alcançar este ano o incrível
patamar de 38% (mais 4% de obrigações administrativas
e burocráticas dela decorrentes).
Enquanto isto, graças à imposição de
um superávit primário superior a 6% (a meta fixada
pelo FMI era de 4,25%), a uma imoral taxa de juros de 16%, à
taxa cambial flutuante, à inexistência de um controle
de capitais e ao pagamento de R$ 145 bilhões de juros da
dívida interna (cerca de 9% do PIB) inexistem recursos suficientes
seja para o atendimento das necessidades coletivas (energia, transportes,
comunicações, saúde, educação,
ciência e tecnologia), seja para promover o desenvolvimento
sócioeconômico.
Desta forma, a classe média empobrece-se crescentemente.
O aumento brutal dos tributos, os gastos com tarifas públicas,
a indexação de preços, com exceção
dos salários (remuneração do trabalho), a queda
do nível de emprego e a diminuição dos salários
reais, em conjunto com o acréscimo das despesas com serviços
prestados por empresas particulares de saúde, educação
e até segurança, conduzem a uma dramática perda
de poder aquisitivo do povo dos detentores de renda fixa, nunca
vista na História do país. Poucos possuem muito e
muitos apropriam-se de muito pouco.
Os meios de comunicação antigamente denunciavam as
injustiças sociais, porém hoje em dia costumam mascarar
as distorções existentes. A classe política
colabora para o agravamento da concentração de renda
e o sistema a perpetua.
A classe mais pobre somente consegue sobreviver utilizando a economia
informal e em virtude de medidas assistencialistas e populistas,
com fins eleitorais. Com a continuação da implantação
do modelo imposto pelo FMI, adotado com entusiasmo pela administração
FHC, e pelos atuais inquilinos do poder, o sistema econômico
é incapaz de gerar empregos, deixando de responder aos jovens
que ingressam no mercado de trabalho e muito menos de absorver parte
dos 12 milhões de desempregados existentes no Brasil. A economia
informal está calculada em 40% do PIB e existem mais de US$
150 bilhões de residentes aplicados no exterior.
Como o estatuto do desarmamento "acabou" por decreto com
a violência no país, urge que nossos diligentes congressistas
votem o estatuto do emprego, para também "eliminar"
com o desemprego. Basta uma frase: "A partir desta data, todos
os brasileiros passam a ter emprego no Brasil". Pronto, está
resolvido o problema.
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