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Dr.Geraldo Mendes dos Santos ( *
)
No universo
fenomenal de dados estatísticos em que a sociedade
moderna se vê atolada, talvez seja insignificante
ou mesmo desprezível saber-se, por exemplo, que os
países ricos e desenvolvidos possuem 20% da população
e consomem 80% da energia disponível no mundo ou
que eles lançam na atmosfera, a cada ano, cerca de
5,5 bilhões de toneladas de gases. De igual modo,
que existem no Brasil cerca de oito milhões de pessoas
acometidas do mal de chagas, trezentos mil casos de malária,
metade das crianças com anemia ou uma vítima
da violência a cada instante. Afinal, qual o real
significado e alcance dessas estatísticas e que tipo
de sensação íntima, motivação
psíquica, esses números dão conta?
- Convenhamos: - pouco, talvez coisa nenhuma! As estatísticas,
embora úteis na pesquisa social, na gestão
administrativa e nas colunas de jornais, são frias
e passivas, desprovidas de essência, sem nenhum sentimento
ou energia verdadeiramente humana. Infelizmente, as circunstâncias
exageradamente competitivas e adversas do mundo moderno
parecem ter transformado os dilemas, as tragédias
e os dramas em algo absolutamente comum.
A
humanidade parece estar-se acostumando à impessoalidade
e ao anonimato. Tudo é transformado em número.
O nome das pessoas pouco importa, já que elas estão
sendo irremediavelmente transformadas em letras e algarismos,
não importando aqui tratar-se de arábicos,
barras ou genômicos.
Parece
haver uma tendência mórbida, degenerativa e
inconseqüente, visando sempre a negação
do sujeito e a identidade do indivíduo. O objeto
é o que importa e parece importar ainda mais quando
se trata de dinheiro, poder e fama. As realidades pessoais
e subjetivas são brutal e imbecilmente transformadas
em gráficos, cifras e citações Até
a desgraça humana e a degradação ambiental
parecem estar perdendo a cara e o nome e sendo transformadas
em códigos e números. Tudo é quantificado
e transformado em cifras, como se isso fosse retrato da
verdade, protocolo da mudança desejável, solução
do problema ou simples atestado da suprema sapiência
humana. Como alimentar a esperança num futuro diferente
se a manipulação dos genes, artefato da tecnologia
de ponta e apanágio da excelência científica,
já está sendo utilizada como fator de coação,
peça de cata-níqueis ou mesmo instrumento
de discriminação?!
É
verdade que o mundo é grande e está coalhado
de gente e que o processo tecnológico é irreversível,
mas isso não é justificativa para essas mórbidas
tendências. Essencialmente, é preciso resgatar
os reais valores humanos, situados fora da raia dos números.
É perfeitamente compreensível a tentativa
de quantificar os valores do progresso, do sucesso e até
do sofrimento, mas com empenho igual ou ainda maior, é
preciso estar atento às essências. É
preciso uma revalorização dos sentimentos,
uma das mais belas e pujantes prerrogativas do ser humano.
É preciso uma sintonia mais afinada com as verdades
transcendentais, preconizadas pelas profecias dos santos
ao longo dos tempos, quais sejam, a fraternidade, o amor
e a justiça. A conquista do progresso, do desenvolvimento
ou da sustentabilidade (ou qualquer nome que se queira dar
à aventura humana na terra) deve passar obrigatoriamente
por essa ética. A quantificação das
coisas, fatos e pessoas é necessária à
gestão, administração e pesquisa, mas
seguramente ela contribui com ninharias para a melhoria
das condições ambientais ou a redenção
humana. Importante mesmo é cuidar da essência
dos seres, da qualidade das coisas, da origem dos fatos,
enfim, da natureza intrínseca do mundo.
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