|
Dr.Geraldo Mendes dos Santos ( * )
O
escritor francês Michel Houellebecq está certíssimo
quando diz que o valor de um ser humano, na atualidade,
é medido por seu potencial erótico e sua eficácia
econômica. Não é preciso penetrar nos
meandros da Filosofia ou mesmo consultar a obra de Albert
Camus (de quem se diz que o personagem é discípulo)
para perceber a veracidade dessa afirmação.
Sobre o potencial erótico, talvez não seja
preciso qualquer tipo de comentário. As opressões
e repressões cometidas em nome da moralidade e religião,
o atavismo biológico-cultural e as "neuras"
de todos os tipos mostram isso claramente. Para aqueles
que julgam esses princípios demais rebuscados e especulativos,
sugiro prestar atenção aos hits musicais,
programas de rádio e televisão, detalhes das
roupas, requebros da danças, trejeitos dos gestos
ou tão somente aos apelos da libido.
Com ou sem tesão, em dose maior ou menor, admitindo-se
ou não, o erotismo é um componente básico
na medição do valor humano atual (ou talvez
de todos os tempos). Quanto a isso, sem nenhuma demagogia
ou acinte, parece que a maioria dos seres homens é
rica, real ou imaginariamente. Grave é a situação
da eficácia econômica.
Aqui, infelizmente, a clientela/agente é minoria,
a riqueza é mal repartida e é por causa dela
que se cometem as maiores patifarias e ignomínias.
É sobre isso, portanto, que reflito.
O sentido da eficácia econômica é um
universo sem limites, indo de um extremo a outro de seus
pecados, geralmente longe do centro das virtudes. De modo
geral, a prostituição que grassa na atualidade
não é mais a carnal, tão difamada socialmente,
mas o apetite insaciável à acumulação
e ao consumismo.
A eficácia ou vantagem econômica parece ser
a premissa básica de qualquer tipo de vitória,
a virtude excelsa do homem bem sucedido.
Essa é, por exemplo, a estratégia do mercado
financeiro mundial, muito mais influenciado pelo nervosismo
das bolsas que dos bens tradicionais de produção.
Hoje até bens humanos fundamentais, como a saúde,
alimento e educação são viabilizados
unicamente pelo lucro. O mercado globalizado de hoje produz
muitos
bilionários, não pela posse de dinheiro ou
qualquer outro tipo de bens, apenas pela especulação
dos agentes financeiros. Ganha-se, blefando, ao mesmo tempo
que se combate o jogo. Bendito-execrável capitalismo!
Não somente a economia e a política, mas até
mesmo a ciência e tecnologia têm sido vítimas
e ao mesmo tempo algozes desse processo aviltante. Um exemplo
disso é o extermínio de seres humanos, plantas,
bichos e o meio ambiente, à custa do lucro a qualquer
custo. Nesse sentido, prostitutos são aqueles que
compram ou se deixam vender, de maneira servil, oportunista
e leviana.
Igualmente prostitutos são os agentes técnico-científicos
que buscam a fama, o prestígio e a fortuna de qualquer
jeito, mesmo que tripudiando e violentando os elementares
princípios da ética e do direito individual
e coletivo.
As experiências laboratoriais escusas com seres humanos
ou mesmo o mercado negro de órgãos vitais
é outro exemplo. Já se vendem crianças,
córneas, peles, medulas e todo tipo de vísceras
com incrível facilidade. Mentes e corações
são comprados por algumas dezenas de réis
ou tão somente meia dúzia de promessas, normalmente
vãs. O patrimônio cultural e estratégico
de uma nação é vendido em nome da privatização,
como se essa fosse a salvação do mundo. Tudo
é vendido! Continuando assim, é possível
que até as almas um dia sejam alvo desse mercado.
Aliás, existem por aí milhares de teólogos
falando de Deus como se Ele fosse uma mercadoria, um objeto
de negociação. Essa gente usa e abusa do nome
sagrado como forma de eficácia econômica e
até de erotismo.
É o fim do mundo!
Houellebecq pode ser meio-maluco, como insinuado na resenha
que li recentemente a seu respeito, mas está totalmente
lúcido e coberto de razão ao afirmar que nos
dias atuais o valor do homem não passa de sua valia
erótica e econômica. Para onde vamos?!
|