Maria da Glória Rosa*

O Rio dos Tuiuiús é largo, límpido e generoso. Nele cabem todos os ritmos, todas as inspirações, vindas dos mais diversos pontos do País e do mundo. Em seu deslizar em meio a paisagens de grande beleza, incorpora afluentes de Minas, São Paulo, Nordeste, dos países latino americanos e também das regiões longínquas da África, que através dos negros forneceram aos norte-americanos os fundamentos do blues, e do jazz.
O blues surgiu como um canto de revolta, de tristeza, resultante do sofrimento dos escravos, prisioneiros num país estrangeiro, separados das famílias, obrigados nas colônias americanas, a um tipo de trabalho a que não eram habituados em sua terra de origem..A princípio, ligadas às tradições religiosas, à ânsia de liberdade, essas canções com o tempo foram tomando conotações diversas e passaram a abordar assuntos do cotidiano, ao mesmo tempo que pela beleza da melodia, a riqueza dos arranjos iam invadindo as mais diversas regiões deste nosso planeta.
Dentro das linhas que definem o caldo cultural que é a música de Mato Grosso do Sul, surge o CD Blues e Sonhos no Reino dos Tuiuiús de Boaventura, onde se mesclam influências regionais aos acordes do blues e até aos sons da cítara, instrumento que aprendeu a tocar na Índia onde viveu dois anos. É o segundo CD do autor, que, desde criança, tem na música uma de suas realizações.maiores. Acompanhado do Bando do Velho Jack,
Boaventura canta, toca guitarra, cítara, violão e slide guitar em composições , que foram surgindo como fruto do contacto com os grandes mestres do blues dos quais assimilou a força criadora. B. B. King. Bob Dylan, John Mayall, Eric Clapton , Peter Green, Duanne Allman e Johnny Winter são compositores em que se inspira. Entre os nacionais, sua admiração vai para Hermeto Pascoal, Sivuca, Caetano, Gil , Egberto Gismonti, Zé Ramalho e Raul Seixas.
Há de tudo nesse disco que toma conta da sensibilidade do ouvinte, desde a introdução em que a mulher e a paisagem se confundem, embaladas pelo som da guitarra, com o céu descendo as ruas, céu de Campo Grande, tão perto de nós que quase pode ser tocado com as mãos.
Em todas as faixas há intensa ligação entre voz e instrumentos.
Na composição Um Sentimento rola a vida com seu ciclo de memórias, por entre cores, chuva emoções, que o tempo guardou. Na melodia O Som do Mississipi os acordes do piano simulam a solidão do cantor, ao mesmo tempo que se estabelece diálogo dos mais eloqüentes entre bateria e guitarra, num ponto e contraponto dos mais inteligentes. A mensagem de busca da mulher amada é enfatizada com eloqüência..
A presença do humor, toma conta de diversas canções.Um exemplo disso é a faixa É Mesmo o Blues em que o piano ao fundo dá o tom de desabafo do autor, que canta, como se falasse, com os pensamentos, brotando em ritmo de revolta misturada às incertezas da sorte. Nesse mesmo ritmo figura Sinal, uma viagem ao passado, bebido nas histórias em quadrinhos de Angeli e Crumb, em que tragédia e comédia se misturam no mais pertinente dos desafios, com os sons da guitarra rasgando as emoções dos ouvintes, numa identificação entre emissor e receptor.
A música regional fala alto na composição Violeiro Companheiro, grito de protesto contra o tratamento dado aos lavradores, cujas terras foram roubadas, com a guitarra funcionando como canal dos gemidos, dos clamores sem resposta.
Mato Grosso do Sul com a explosão de cores, profusão de animais, com as fogueiras brilhando nos olhos da amada surge majestoso em Fogueiras afirmação de que o autor pertence a um Estado que faz os olhos vibrar e sentir.
Blues e Sonhos no Rio dos Tuiuiús é um painel impressionista de sensações, um hino aos municípios do Estado , paraíso de todas as nações, por onde corre o sangue indígena, latino americano, sangue de gente de coragem, que aqui se instalou para transformar a vida numa obra de arte.
Contando com os maiores experts do blues e do rock no Estado e a presença de Big Gilson da banda de blues Big Alambik, Boaventura brindou-nos com um disco que ao mesmo tempo em que toca a essência do blues, realimenta as raízes sul-mato-grossenses em canções que encantam o ouvinte. Com grande domínio vocal, cercado de músicos de primeira Boaventura produziu um disco de grande expressividade.
Destaque para capa, verdadeira obra de arte, criada pelo artista plástico Humberto Espíndola e a produção gráfica a cargo de Marília Leite e Lennon Godoi É um disco que espelha a experiência humana do autor, que certamente encontrará ressonância na sensibilidade dos ouvintes.
Blues e Sonhos no Reino dos Tuiuiús será lançado em grande show, com a presença do Bando do Velho Jack e do guitarrista Big Gilson dia 27 do corrente às 21 horas no auditório do Sebrae. |