Maria da Glória Rosa*

Olhos verdes de onça manhosa que até hoje a perseguem no sono.
Sussurros de vozes no fundo da noite. Boca de jacaré aberta em presas afiadas para dilacerar.
Um assobio ao longe. Ondas de prazer que nunca mais lhe deslizariam iguais pelas paredes da alma.
Por que tudo não se tinha dissolvido na noite? As vozes, o ruído dos passos da enfermeira, os ponteiros do relógio, marcando as mesmas horas, oleosas, espessas, imobilizadas nas lembranças, que se repetem como neurótico video-tape.
Por que insistiam em dar-lhe pílulas e injeções para dormir? Por que a haviam imobilizado na prisão da cama de hospital, se na verdade estava bem longe dali, livre para reencontrá-lo, gozar de seus beijos, de suas carícias como antes? - Maria, onde está nossa filha?
- Foi andar a cavalo, com a amiga de São Paulo.
- Fique de olho nela, não pára em casa, sempre enfiada pelo mato com essa amiguinha, que não merece nossa confiança....
- Ora, João, Liana cresceu, gosta de andar a cavalo, de tomar banho na cachoeira, de visitar as famílias dos trabalhadores. Depois de todos esses meses fechada no internato, tem necessidade de espaços maiores, de liberdade.... Pare de implicar com ela...
- O que não aceito é essa sua mania de viver misturada com os peões, enfiada nas casas deles, não se dando a respeito, como se fosse uma qualquer.
Liana lembra-se dos cuidados do pai, tratando-a como criancinha que ainda estivesse no tempo das bonecas. Tinha quinze anos e estava loucamente apaixonada por Paulo, o peão de olhos de onça manhosa com quem se encontrava todas as tardes, num ranchinho abandonado, graças à cumplicidade de Carla, a amiga de internato que viera passar as férias no Pantanal. Com ele tinha descoberto bem cedo os prazeres do amor. Estava presa ao olhar, às mãos daquele homem, como um vício que a prendesse para sempre em suas malhas. Não pensava nas conseqüências. A única coisa que lhe importava eram os minutos o momento de arrebatamento em que enlaçada a Paulo abstraía-se da terra, da família, dos interesses anteriores para viver as surpresas do amor.
-Peguem esse desgraçado. Levem o corpo para bem longe, onde nunca mais possa ser encontrado. Foi pouco o que fizemos a esse sem-vergonha, para ele aprender a conhecer seu lugar.
Foi assim, que denunciado por um companheiro, que espreitava com olhos de cobra venenosa, os encontros do casal, o fazendeiro invadiu a cabana, e assassinou brutalmente Paulo, sob o olhar atônito da filha.
O crime foi abafado. O corpo de Paulo enterrado num local afastado da fazenda. O desaparecimento foi explicado com a versão de que viajara até a capital, chamado às pressas pela mãe, que se achava gravemente doente.
Liana, embarcada num jatinho da família, foi internada num sanatório de onde saiu com terríveis seqüelas morais, que lhe marcariam a alma para sempre.
Numa luxuosa cobertura de Ipanema.
Uma mulher de seus trinta e poucos anos "zapeia" o controle remoto da TV. Nenhum canal a satisfaz. Em quartos individuais, os filhos adolescentes jogam diante de computadores.O marido, de volta do escritório, prepara um drinque que bebe imerso nas preocupações com negócios. Nào há diálogo nessa casa de compartimentos estanques, em que cada um nada tem a dizer ao outro.
Liana completou os estudos na Suíça. Na volta ao Brasil, os pais casaram-na com Roberto, atraído pela beleza e acima de tudo pela fortuna da moça. Se sabia do fato acontecido no Pantanal, pouca importância deu a ele e, se deu, foi para ignorá-lo.
Nunca houve para Liana qualquer tipo de prazer nesse casamento. A descoberta das alegrias do sexo, acontecera no Pantanal com Paulo e nunca mais se repetiu com a intensidade de antes...
Na calada da noite, quando as comportas mentais se libertam, brilham no escuro, convidativos os olhos verdes de onça manhosa de Paulo a sugerir-lhe o carinho que o marido nunca lhe soubera oferecer. E também é no escuro que os dentes de jacaré do fazendeiro, surgem afiados para dilacerar os sonhos de Liana, que desperta e afoga a inquietação no copo de uísque ou nas pílulas para dormir.
Por que a haviam imobilizado na prisão da cama de hospital, se na verdade estava bem longe dali, livre para reencontrar Paulo, gozar de seus beijos, de suas carícias como antes?
No Pantanal
A serenidade das lagoas, cercadas de branca areia, onde jacarés dormitam ao sol, rodeados de aves de todas as formas, em florestas de verdes dos mais diversos tons, parece ocultar vidas tranqüilas, como se o mundo estivesse parado, isento de problemas de toda ordem.
Debaixo de tanta calma, rios de sangue de desenfreada cobiça, de prepotência, de autoritarismo continuam a correr.
Tudo enganoso, repleto de mistérios, de mentiras, como na vida de Liana. |