Samaúma


 

A Música é o Caminho do Coração

 

Maria da Glória Sá Rosa

"Tudo jaz diluído e cintilante numa profunda névoa. Nada porém se perde ou esquece embora tão finamente disperso nessa grandeza. Gastam-se as imagens e os símbolos mas a essência resiste"-Cecília Meireles

Lembranças vêm nas ondas da música. Pedaços de sonho atravessam as paredes do tempo e deixam nos olhos imagens vivas da realidade escondida no cristal de um espelho. A infância reinventada em canções de roda, de filmes, que aos cinco anos ele sabia reconhecer e entoar. A adolescência dos festivais de música, em que, confiante no sucesso das próprias composições, concorria ao lado dos amigos Paulinho Simões, Geraldo Espíndola, Moacir Lacerda, que acreditavam como ele no poder dos sons para chegar mais rápido ao coração dos ouvintes.

O prazer de viajar nas músicas dos Beatles, de Bob Dylan, dos Rolling Stones, dos compositores da bossa nova, mais tarde substituídos por Zé Ramalho, Alceu Valença e tantos outros era o estímulo para crescer na profissão de engenheiro em que as cifras substituíam acordes delirantes.

As lições de violão e de guitarra elétrica aprendidas com os mestres Eric Clapton, B.B. King e Joe Sartriano convenceram-no de que os simples gestos das mãos a deslizar nas cordas poderiam produzir o milagre de acordar a beleza nos mais duros corações.

Os anos passados na Índia, de onde regressou de posse dos segredos da cítara, foram geradores de novas emoções nos improvisos de blues, rock, bossa nova , expressos em produções marcadas por influências que engrandeciam o regional.

Nas composições do primeiro CD com o parceiro Rubens Aquino, a poesia percorreu "Oceanos no Céu" foi até a "Fazenda Garimpo" "onde cavalos atravessam estradas de arco-íris e comem a chuva", chegou até o rio Paraguai, "cujas águas adormecem a tristeza do sertão". Em Pantanal , letra de Manoel de Barros de quem era admirador e amigo, viajou por estradas abertas à sensibilidade de quem sabia escutar os secretos ruídos da natureza.

No segundo CD "Blues e Sonhos no Rio dos Tuiuiús" revelou-se autor de letra e música e um instrumentista de talento. Nos acordes do blues, foi ao Mississipi, subiu ao céu, sem perder contacto com o sabor das cidades de Mato Grosso do Sul que amava percorrer em shows que faziam o público vibrar com os acordes da guitarra e da cítara.

Viveu para a música e para as pessoas que amava : a família, os amigos, o Estado em que construiu sua vida artística e profissional.

Deixou-nos sem fazer barulho, de repente, sem tempo de despedir-se, com a mesma discrição com que viveu. As canções em que imortalizou o amor pela esposa e pelos filhos, cintilam em meio à névoa. Por isso, a cada dia, sua presença torna-se mais viva mais real, como se nunca nos houvesse abandonado. Imagens e símbolos não se gastaram : estão presentes nos vídeos, nos discos, na voz, em tudo enfim que nos traz de volta sua figura de músico e de poeta.

Foi-se a matéria mas a essência do que foi José Boaventura (Neno ) continuará a resistir, a viver na memória de tantos que o amaram e admiraram.