Samaúma








Voltar para página principal.

 

Quem matou Irvânio?


Maria da Glória Sá Rosa *


O corpo foi encontrado desfigurado, debaixo de uma árvore, na fronteira de Corumbá com a Bolívia. Já fazia meses que a polícia havia sido notificada do desaparecimento, sem o menor resultado.

Os investigadores descobriram que se tratava de um homem branco, de 35 anos, rosto marcado por pancadas, rodeado de urubus. Um mau cheiro terrível obrigou os policiais a usarem máscaras e luvas para se aproximarem do local. Era um quadro sinistro, digno de um filme de terror.Quem seria esse homem e o que fizera de tão grave, para merecer castigo reservado a bandidos, a criminosos responsáveis por crimes hediondos?

O Rio de Janeiro dos anos 40 era muito diferente da cidade violenta, dominada pela droga, citada nos jornais de hoje como a grande responsável pelo clima de filme noir que domina morros, toma conta das ruas e do coração das pessoas, paralisadas pelo medo.

Luiza, sentia-se feliz por ter resolvido estudar ali. O que mais a encantava além do bom humor da população, era tranqüilidade com que caminhava por ruas e praias, na segurança de quem nada teme, como se o mundo lhes pertencesse. Gostava de ir de bonde até a faculdade, para aspirar o cheiro gostoso do mar, ausente da planície árida de Campo Grande. Desde quanto tentara o vestibular para Direito na Pontifícia Universidade Católica, encantara-se com o clima de liberdade que descobrira no convívio de moças e rapazes que fumavam nos corredores, do edifício da rua São Clemente, passeavam de mãos dadas com os namorados, tinham encontros nas praias desertas, onde podiam amar sem a curiosidade de terceiros.

Mas apesar do sucesso nos estudos, das amizades, do dinheiro que possuía, para gastar à vontade não conseguia arranjar namorado.

Nascera feia e o máximo que obtinha dos rapazes era uma conversa banal em que gabavam as qualidades de outras moças mais felizes do que ela. Só lhe davam atenção quando queriam ajuda nas vésperas das provas, em que lhe solicitavam as respostas das questões mais complicadas.

Paulo Francis disse certa vez, num artigo, que nada marginaliza mais as mulheres do que a feiura. E Luiza sentia isso nos risinhos das amigas, quando ficava sentada nos bailes do Rádio Clube de Campo Grande, sem que uma alma piedosa a convidasse para dançar..

Até que um dia, numa festa da Alliance Française, do Rio de Janeiro conheceu Ivanio, recém-chegado de Paris. Ao vê-lo aproximar-se, assustou-se:

-Sou eu mesma?

-Sim, é você mesma, menina de olhos bonitos que fala tão bem a minha língua. Por que toda essa surpresa?

Foi assim aos compassos da valsa La mer, de Charles Trenet que a paixão tomou conta dos dois. Luíza, que tinha adoração por cada pedacinho da França, sentia-se deslizando em macias nuvens de algodão.

-Você não me acha muito feia?

-Quem lhe disse uma bobagem dessas?

Você á a mulher mais linda que encontrei até agora no Brasil. Além do encanto físico tem inteligência, sabe conversar, entreter um homem. É muito diferente das bonequinhas tolas que existem aos montes e que não têm um terço de sua beleza interior.

Luiza abandonou o curso de Direito e casou-se com Ivânio, apesar das objeções da família, que via no rapaz um mero caçador de dotes, interessado apenas na fortuna da moça.

-Não estou pensando em sua fortuna.Gosto de você pelo que é estou certo de que juntos vamos construir um espaço de felicidade para nós e para nossos filhos.

A fazenda Santa Rita, com mais de dez mil cabeças de gado nelore, era uma das mais prósperas da região. Luiza sentia-se ligada ao verde da paisagem, ao mugir do gado, aos luares, em que deitada na rede,ouvia o pai contar histórias, enquanto os dois irmãos menores, aguardando a chegada do sono jogavam bola na larga varanda. No espelho da memória ficaram impressas cenas de um filme repleto das cores e odores que dão sentido a uma infância, que parecia nunca haver ter morrido. Só que tudo pode parar menos o relógio do tempo e as águas do rio arrastam para a eternidade mesmo o que parece estável e permanente.

Os pais de Luiza, já velhos, viviam sempre viajando. Os dois rapazes, casados e com filhos ajudavam o pai a tomar conta da propriedade, que Luiza sempre considerou tão sua quanto deles e onde pretendia construir sua vida de casada ao lado de Ivânio.

No princípio, tudo parecia correr sem nuvens, como se o vento da cordialidade fosse eterno em seu brando soprar.

Luiza instalou-se com Ivânio numa das casas da sede da fazenda, num ritmo de vida bem diferente dos anos passados no Rio de Janeiro.

Ivânio a princípio ajudou a tomar conta do gado, forçando uma aprendizagem, que não condizia com a educação recebida na França, até que se sentindo posto de lado pelos cunhados, resolveu tentar seu próprio negócio. Comprou um carro no qual fornecia mercadorias para os comerciantes das cidades perto de Campo Grande. Diversas vezes reclamou à mulher que ela estava sendo passada para trás pelos irmãos nos negócios de gado da família. Luiza ouvia em silêncio. Parecia concordar com o marido, mas depois era assaltada por dúvidas.que a posicionavam ao lado do pai e dos irmãos.

"-Papai esse gringo caça-dotes está arruinando a tranqüilidade de nossa família. Deu o golpe do baú e fica espionando nossos negócios. querendo explorar a gente. Quem não sabe que só se casou com Luiza, por causa do dinheiro dela.? Só um vigarista ambicioso aceitaria unir-se a uma mulher feia como nossa irmã."

"-Tenha calma meu filho, ele tem o próprio negócio, ganha dinheiro com o comércio de mercadorias, não há razão para vocês se preocuparem."

-Há poucos dias em Campo Grande soube que ele procurou um advogado para reclamar os direitos de Luíza na venda de nosso gado. Soube também que ele está usando a camionete para transportar drogas da Bolívia para São Paulo e Rio. Esse cara é um bandido que quer acabar com o que temos. Um preguiçoso, boa vida que precisa ser afastado de nosso convívio."

A convivência dos primeiros tempos, de Ivânio com a família de Luíza azedou-se a tal ponto que os irmãos a forçaram Luíza a deixar a fazenda onde o marido foi proibido de aparecer.O fogo da ganância, do apego ao dinheiro levantava labaredas na alma dos membros de uma pequena família em cujo repertório só figuravam palavras irmãs do ódio, do rancor, da destruição. Não havia sono tranquilo nos limites da fazenda, nem entre as quatro paredes da casa de Luiza e de Ivânio.

"-Mamãe já faz dois dias que Ivânio não dorme em casa. Eu tinha saído e a empregada me disse que dois homens vieram buscá-lo numa Toyota prata. Ele disse a ela que estava viajando a negócios mas telefonaria avisando. Precisamos avisar à Polícia,você não acha?"

-Luiza, acalme-se, amanhã seu marido estará de volta. Pense no escândalo que vai ser para nossa família se uma notícia dessas aparecer nos jornais. Vão logo surgir mil versões nas quais nossa vida será examinada, inventarão histórias, nosso nome será jogado na lama. Tenha paciência, tudo vai acabar bem.

A polícia só foi avisada do desaparecimento um mês depois. O corpo de Ivânio foi descoberto por acaso por uns caçadores, espantados com o mau cheiro que exalava do local. Na realidade os jornais aventaram mil hipóteses mas nenhuma se confirmou. O que mais se falou foi em queima de arquivo, resultado de briga de gangues, envolvidas no tráfico de cocaína. Para dar crédito a essa versão, foi que lançaram o corpo na fronteira de Mato Grosso do Sul com a Bolívia

A família de Luiza foi submetida à longo interrogatório. Até ela mesma foi considerada cúmplice dos irmãos que desejavam livrar-se daquele fardo incômodo, que viera de longe perturbar um sistema que o rejeitava. Não se chegou a resultado algum, nada ficou provado. Teria sido Ivânio um traficante de drogas? Ou, como na Máfia, a família de Luíza se unira num crime monstruoso para se proteger da ambição de um estranho.?
Ivânio não deixou saudades. Só Luíza, a moça feia sonha todas as noites com o francês bonito que a tentou arrancá-la da solidão, sua única companheira nas tarde mornas de Campo Grande.