cabSamaúma
 







11/ABR/2004

O Urânio Enriquecido e a Bananada da Vovó


Col Carlos Henrique
Fritz Utzeri

Pronto! Somos o Iraque da vez! Simultaneamente, três dos maiores jornais do mundo começam uma campanha orquestrada contra o Brasil: o New York Times e o Washington Post acusam o Brasil de estar escondendo algo em sua usina de enriquecimento de urânio, em Resende, sugerindo que poderíamos estar desenvolvendo um programa para obter a bomba. O Financial Times classifica o nosso atual governo de ''esquerdista'' (eu, hein?) e informa que a pressão sobre o Brasil vai crescer.

Americanos e ingleses não se conformam, porque o Brasil não permite que técnicos da Agência Internacional de Energia Atômica fiscalizem a fábrica que enriquece urânio, alegando que desenvolvemos tecnologia mais barata e eficaz que a de nossos competidores. Temos razão ao fazê-lo. Dou minha cabeça ao carrasco se a AIEA fiscalizar as instalações secretas dos EUA onde - aí sim - são desenvolvidas armas de destruição em massa.

Nós somos tradicionalmente pacíficos em política externa e nem tanto quando nos voltamos para dentro. Se os gringos estiverem interessados (dou a informação de graça), saibam que fabricamos nossas armas de (auto)destruição em massa em Brasília mesmo. Na Esplanada dos Ministérios. Mais precisamente, nos gabinetes da equipe econômica.
Palocci & Meirelles, com sua política recessiva e juros na estratosfera, têm matado dezenas de milhares de brasileiros de fome e vêm matando outros milhões de raiva. Bomba neles, Bushinho! Se a tensão prosseguir, poderemos até acabar sendo invadidos pelos ianques. Pra nós, iam sobrar algumas vantagens. O Banco Central seria substituído - de imediato - pelo Federal Reserve (o BC americano), que fixaria aqui a mesma taxa de juros que vale nos EUA: 1% ao ano. Talvez assim o país voltasse a crescer...

Por que enriquecer urânio, em lugar de vendê-lo in natura? O professor Weber Figueiredo, da Uerj, paraninfo da turma de engenharia deu, recentemente, uma aula magistral para ajudar a entender coisas como valor agregado, soberania e importância da ciência e tecnologia. Devíamos ensinar isso às crianças na escola primária. Peço licença a mestre Weber e abro-lhe o meu espaço: ''Para começar, vamos falar de bananas e do doce de banana, que vou chamar de bananada especial, inventada (ou projetada) pela nossa vovozinha lá em casa, depois que várias receitas não deram certo. Para entendermos a importância do engenheiro vamos falar de bananas, bananadas e vovó. A banana é um recurso natural. Não sofreu nenhuma transformação. A bananada é igual a banana, mais outros ingredientes, mais a energia térmica fornecida pelo fogão, mais o trabalho da vovó e o conhecimento, ou tecnologia da vovó. A bananada é um produto pronto, que vou chamar de riqueza.

E a vovó? Bem, a vovó é a dona do conhecimento, uma espécie de engenheira da culinária. Agora, vamos supor que a banana e a bananada sejam vendidas. Um quilo de banana custa R$ 1. Já um quilo da bananada custa R$ 5. Por que essa diferença de preços? Porque quando colhemos um cacho de bananas na bananeira, criamos apenas um emprego: o de colhedor de bananas. Agora, quando a vovó faz a bananada, ela cria empregos na indústria do açúcar, da cana-de-açúcar, do gás de cozinha, na de fogões, de panelas, de colheres e até na de embalagens, porque tudo isto é necessário para se fabricar a bananada. Resumindo: 1kg de bananada é mais caro do que 1kg de banana porque a bananada é igual à banana mais a tecnologia agregada, e a sua fabricação criou mais empregos do que simplesmente colher o cacho na bananeira.
Agora vamos falar de outro exemplo que acontece no dia-a-dia no comércio mundial de mercadorias. Em média, 1kg de soja custa US$ 0,10 (dez centavos de dólar), 1kg de automóvel custa US$ 10, isto é, 100 vezes mais, 1kg de aparelho eletrônico custa US$ 100, 1kg de avião custa US$ 1 mil (10 mil quilos de soja) e 1kg de satélite custa US$ 50 mil. Quanto mais tecnologia agregada tem um produto, maior é o seu preço, mais empregos foram gerados na sua fabricação.

Os países ricos sabem disso muito bem. Eles investem na pesquisa científica e tecnológica. Por exemplo: eles nos vendem uma placa de computador que pesa 100g por US$ 250. Para pagar essa plaquinha eletrônica, o Brasil precisa exportar 20 toneladas de minério de ferro. A fabricação de placas de computador criou milhares de bons empregos lá no estrangeiro, enquanto que a extração do minério de ferro cria pouquíssimos e péssimos empregos aqui no Brasil. O Japão é pobre em recursos naturais, mas é um país rico. O Brasil é rico em energia e recursos naturais, mas é um país pobre''.