Samaúma
 

 

 

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CARTILHA DE BIOÉTICA


Irm. Geraldo Mendes dos Santos ( * )

 

Estava consultando bibliografia para a conclusão de um trabalho sobre bioética profunda - uma filosofia que propugna pela ética da vida com noção de respeito à terra e todos os seres que nela habitam - quando me deparei com o trabalho de Lynn Margulis e que serviu de base para a teoria de Gaia. As suas idéias me deixaram ainda mais convicto da forte ligação entre os princípios da ética e da ecologia, bem como das maravilhosas interações envolvidas no processo da evolução orgânica. Para quem não conhece o significado de Gaia, devo esclarecer que se trata de uma teoria científica, formulada por James Lovelock, em que a terra é concebida como um super-organismo vivo e autoregulável. A contribuição de Margulis me parece também totalmente aplicável ao campo da bioética. Esta autora parte da observação de que o homem habita a terra por apenas algumas dezenas de milhares de anos, enquanto os primeiros vertebrados surgiram há cerca de meio bilhão e os organismos unicelulares aqui estão há mais de quatro bilhões de anos. Em termos comparativos, se a vida na terra tivesse a duração de um ano, a existência dos seres humanos nela não passaria de um mero instante, comparável a um relâmpago. Por que foram necessários bilhões de anos de existência dos seres unicelulares para que os primeiros vertebrados e por último o homem surgissem? E também: por que o ser humano, uma criatura tão jovem em termos geológicos é considerado o senhor e dono da terra, o rei da criação? Segundo Margulis, aqueles primeiros seres, considerados primitivos, foram os responsáveis pela "descoberta" das estratégias químicas e biológicas presentes nas células dos animais mais evoluídos. Isto quer dizer que durante os primeiros três a quatro bilhões de anos, a célula passou por um desenvolvimento evolutivo profundo, estando literalmente comprometida com a evolução de suas partes funcionais. Segundo ela, quando os primeiros animais surgiram na face da terra, os micróbios já haviam adquirido todas as principais adaptações biológicas envolvidas nos processos vitais básicos. Isto significa que estes seres precisaram de bilhões de anos para "inventarem" as coisas básicas do repertório da vida e que nos foram repassadas, ligeiramente modificadas, no longo caminho evolutivo. Os peixes, por exemplo, surgidos no período denominado Ordoviciano, há mais ou menos quinhentos milhões de anos, já possuíam as estruturas que ainda hoje são básicas para todos os organismos, inclusive o homem, ou seja, visão, mobilidade, sensibilidade, capacidade digestiva, sexo, etc. Em outras palavras, nós humanos ganhamos de imediato e de "mão beijada" aquilo que os seres primitivos tiveram que adquirir e construir ao longo de bilhões de anos. Isto quer dizer que há muita coisa em comum, que somos irmãos - ou ao menos parentes distantes - de todos os animais. Comparados com os símios, temos um seqüenciamento genômico cerca de 99% idêntico - somos parentes mais próximos, talvez primos, num sentido geo-biológico. A lição que se tira desses fatos é que todos os seres vivos da terra têm um mesmo código universal, o DNA, uma idêntica história evolutiva e talvez um destino comum. Formamos uma grande família, ou biocenose, no dizer dos ecologistas. Compartilhamos a vida, mesmo se cada espécie é exclusiva e tem suas particularidades, seus instintos próprios. Cada classe de bicho ou planta (e também os minerais), cada espécie e mesmo cada indivíduo, é uma entidade única, singular, irrepetível. Mesmo considerando-se o mais evoluído, único ser racional e possuidor de alma e cultura, o homem nada mais é que um elemento na fantástica orquestra da vida. A bioética profunda se confunde com ecologia, na sua acepção mais ampla, pois reconhece a interação, a interdependência e as redes sistêmicas entre todos os seres. Na verdade, não somente a terra e seus seres, mas o universo inteiro, é uma sinfonia harmônica. O ser humano, por ser o mais "inteligente", deve reconhecer esta relação umbilical que tem com a natureza e o cosmos e zelar pelo meio ambiente em que vive. Se não por outros atributos mais nobres do ponto de vista humano, ao menos pela idade na face da terra e pela lição de vida que nos deram, essa bicharada merece respeito. Se as ciências tradicionais não têm sido capaz de assumir e repassar com sucesso estes rudimentos de civilidade ecológica, talvez esteja na hora de se adotar, sobretudo na escola fundamental e em algumas academias científicas, a cartilha da bioética profunda, a ciência-virtude resultante do encontro do conhecimento científico com os essenciais valores "humanos".

PS. Que nas comemorações da "Semana do Meio-ambiente", a luz potencial da bioética e da ecologia profunda se transforme em luminoso clarão, capaz de orientar o caminho da sustentabilidade economicamente forte e eticamente correta e retirar o povo brasileiro das trevas perniciosas e vergonhosas dos mais diversos tipos de apagões.

( * ) Irm. Geraldo Mendes dos Santos, pesquisador .
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