Samaúma
 



 

 

 

 

 




 



 

NEM SECRETA, NEM DISCRETA

 

 

P/ Irm José Maurício Guimarães


 

Este artigo não representa a palavra oficial de nenhuma Loja, Potência ou Corpo Maçônico. Trata-se, apenas, da opinião pessoal do autor.





O Dicionário Aurélio define maçonaria como sociedade ou associação cujo objetivo principal é desenvolver o princípio da fraternidade e da filantropia. Acrescenta ainda um aspecto que, hoje em dia, alguns segmentos da Ordem Maçônica tendem a abolir – que a maçonaria é parcialmente secreta. Pretendem os novos intérpretes da realidade que a Ordem seja definida como DISCRETA ao invés de SECRETA. Mas, a palavra DISCRETA - segundo o mesmo dicionário - significa: reservada em palavras e atos, que sabe guardar segredo, recatada. Se a discrição implica em guardar segredo, então substituir SECRETA por DISCRETA é o mesmo que trocar conjunto de doze objetos da mesma natureza por dúzia. O sentido da palavra DISCRETA tem um inconveniente: pode ser interpretado (ainda de acordo com o mesmíssimo dicionário) por modesta, que não se faz sentir com intensidade, branda e - o que é pior – por algo que não está em continuidade com a vizinhança. Nesta acepção, a Maçonaria, sendo discreta, estaria separada de sua natural vizinhança que é a sociedade. E a História prova exatamente o contrário: a Maçonaria nunca foi modesta em sua participação nos movimentos de libertação, nem branda em suas opiniões éticas e políticas. Enfim: não é secreta e muito menos discreta: o melhor que a define é PRIVATIVA, ou seja, particular de seus membros. Uma vez que em nossas reuniões não são admitidas pessoas não afiliadas; que essas reuniões são separadas do público e num lugar à parte; que nossos encontros constituem um autêntico conselho privado; que, por sua natureza de ofício e instrução (como numa escola especializada) detalhes específicos não devem ser banalizados (revelados) sem a consequente deturpação de seu significado para quem não acompanhe os estudos desde o início (iniciação); que, em virtude disso, os assuntos das escolas iniciáticas só podem ser conhecidos – isto é, compreendidos - pelos que fizeram a opção pela Ordem; que, da mesma forma como acontece nas demais associações, há assuntos restritos e do reservado domínio particular da administração dessas escolas (iniciáticas) que escapam ao domínio, compreensão e ao interesse das outras pessoas, a Maçonaria não é pública e sim particular ou PRIVATIVA de seus associados.

Isto não é difícil de compreender se considerarmos os seguintes fatos: todos os países têm seus segredos de Estado (ou tinham, até a chegada de Julian Assange com o WikiLeaks). Ninguém ousa dizer que os presidentes das repúblicas e seus ministros sejam “sociedades secretas”. Há também os segredos ou sigilos profissionais, e não podemos julgar que os advogados ou os médicos sejam “organizações secretas” pelo fato de eles manterem a intimidade de seus clientes e pacientes reservadas ao bem-estar pessoal e coletivo. Os profissionais liberais fazem juramentos e seguem um código de ética nesse sentido; o sigilo profissional é um dos aspectos desses códigos e a sociedade, assim como o Estado de Direito, encaram isso com normalidade. Outro fato: quando os banqueiros internacionais se reúnem para decidir sobre “o bem da humanidade”, ninguém toma conhecimento do que se passa nesses conclaves e confiamos – de coração limpo – que eles estão mesmo cuidando da nossa felicidade... O mesmo se dá com as reuniões dos produtores de petróleo, dos fabricantes de armas, das multinacionais, etc. Os meios de comunicação apenas têm autorização para fotografar a chegada das grandes personalidades no local do conclave e mais nada. Não podemos assistir ao vivo e a cores tudo o que é dito e decidido nesses encontros protegidos com-clave, isto é, com chave. Apesar desse mistério todo, fazemos nossa profunda reverência às portas fechadas e jamais, em sã consciência, chamaríamos esses augustos grupos de “sociedades secretas” e muito menos de discretas.

Nas empresas há reuniões à parte da qual os trabalhadores não participam – malgrado todas as conquistas sociais. Em todas as religiões do planeta há reuniões à parte, para assuntos conhecidos apenas de uns poucos. Os conclaves do Vaticano, seja para a eleição de novo papa, seja para decidirem sobre questões que afetam a vida de 1 bilhão e 166 milhões de pessoas em todo mundo (dados apresentado pelo Vaticano à imprensa no Anuário Estatístico da Igreja em abril de 2010) são instituídos em caráter PRIVATIVO (ou secreto) de bispos, cardeais e assessores sobre ciência, tecnologia, sociologia, etc. Do papa eleito, resultante desses conclaves, ou dos documentos a artigos de fé emanados dessas autoridades, ninguém questiona o que há de secreto nisso; discreto também não é a palavra. O que melhor se ajusta é PRIVATIVO.

Mas, por que não continuamos tranquilamente com a palavra SECRETA? O bom e velho Latim vem em nosso socorro. Nos dicionários de Francisco Torrinha de Santos Saraiva (escolho propositadamente os mais vetustos) e no âmbito dos verbetes secretio-secretionis até secretus-secreta, aparecem as perigosas palavras SECTA, SECTARIUS, SECTATOR, etc. que apontam para SEITA, MODO DE PROCEDER, SECTÁRIO - expressões “altamente suspeitas”, embora etimologicamente ligadas à questão do SEGREDO. Neste sentido, a Maçonaria não é uma sociedade secreta. Mas, devido à intolerância, às perseguições havidas nos últimos 300 anos e à falta de cultura e/ou informação em países como o nosso, as escolas iniciáticas tiveram que pensar noutra palavra. SECRETO não serve mais, apesar da etimologia latina secretu, (sempre bom e velho Latim!) cujo sentido básico é separado - afastado, apartado, à parte, separadamente. Poucos atentam para a palavra SECRETÁRIO que vem daí: secretarium ou lugar retirado, conselho privado ou tribunal secreto. Os secretários seriam, em sua origem, indivíduos da máxima confiança de um rei, aos quais eram franqueados os assuntos mais restritos (e íntimos) do reservado domínio particular da administração financeira e das guerras. Até hoje ninguém pensou em substituir SECREtário por DISCREtário. Mesmo num último esforço para atendermos ao politicamente correto, seria esdrúxulo denominarmos a função como PRIVAtário. Mesmo porque ninguém se avexa em criar novas palavras quando se trata de Maçonaria: o campo está aberto aos inventores: discrete, discreet, secret, discret, secrete, discrets...

Todavia, os tempos são outros, ou melhor: são os mesmos da época das inquisições e caça às bruxas – todos desconfiam de todos - e não vale a pena sermos sacrificados numa fogueira em nome dos dicionários. Em pleno século XXI, a Maçonaria não é secreta, nem discreta – é privativa e, como tal, não fere a Declaração Universal dos Direitos Humanos, nem o ordenamento do Estado de Direito.

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