em 12/08/2009
Luiz Carlos Faria da Silva
Quando se encara o problema da qualidade da educação brasileira, o que mais surpreende e desconcerta é perceber que nosso país mergulhou num processo de autoengano – com o aval e a cumplicidade da nossa intelligentsia educacional. E a principal evidência disso é a meta de número dois do Movimento Todos pela Educação (quintessência da consciência educacional do país): todas as crianças plenamente alfabetizadas aos oito anos em 2022, idade correspondente à terceira série do Ensino Fundamental (grifo nosso). Que integrante do MTE aceitaria tal meta para seu filho ou neto?
Ora, todas as evidências científicas mostram que 90% das crianças más leitoras ao final da primeira série serão más leitoras ao final da quarta. Diante do estado da arte mundial da ciência cognitiva da leitura, é uma verdadeira aberração esperar que a criança chegue ao terceiro ano do Ensino Fundamental para poder completar o processo de alfabetização.
Num Relatório publicado em 2003 pela Comissão de Educação da Câmara dos Deputados, cientistas dos EUA, Europa e Brasil afirmaram que nenhum problema educacional do país exige uma solução mais urgente do que o da alfabetização das crianças. Mas o establishment educacional dos três níveis de Governo, as Universidades, as organizações que trabalham com educação no país, e até a própria UNESCO, ignoraram essa advertência – pior do que isso: desdenharam. A imprensa não deu destaque ao documento e ele acabou caindo no esquecimento.
O fracasso na alfabetização não pode ser ignorado. Ele compromete o desempenho leitor das crianças durante toda a Educação Básica – e o fato (gravíssimo) de que a sociedade nem se aperceba disso só ajuda a tornar suas consequências ainda mais devastadoras.
Um termo de comparação: o Instituto Nacional de Saúde Humana e Desenvolvimento Infantil dos EUA (o NICHD) trata o problema do fracasso na alfabetização como uma questão de saúde pública – e não apenas como um problema educacional. Em setembro de 2006, Majorie Gillis (cientista sênior do Haskins Laboratories, onde nas décadas de 1950 e 1960 se produziu boa parte dos conhecimentos que hoje permitem o funcionamento de sistemas automatizados de reconhecimento e sintetização eletrônica da voz humana) deixou isso claro num artigo publicado no The New York Times: parte dos estados americanos estima a futura população carcerária acompanhando o desempenho em leitura das crianças em série escolar que corresponde, no Brasil, à segunda série do Ensino Fundamental.
Quando começaremos a cogitar sobre este problema?...
Infelizmente, isto não é tudo. Tão ou mais danoso do que esse autoengano é a atitude de absoluta negligência diante dos efeitos de dois fenômenos sociais gravíssimos e interligados – e que têm ajudado a aumentar os contingentes cada vez maiores de jovens (de todas as origens sociais) atirados no caminho da delinquência, da apatia, do cinismo e da inanidade intelectual.
Testes realizados por três economistas do Inter-american Development Bank e do Innocenzo Gasparin Institute for Economic Research – cujos resultados foram publicados entre o segundo semestre de 2008 e janeiro de 2009 – revelaram que a queda vertiginosa da taxa de fecundidade entre os anos 1960 e 1990 no Brasil e o aumento do número de divórcios (num ritmo muito superior ao ocorrido em países semelhantes da América Latina entre as décadas de 1970 e 1990) estiveram, controladas outras variáveis, forte e especificamente associados à difusão das novelas da Rede Globo de Televisão no país.
Para analisar a influência de diversos fatores sobre as taxas de natalidade, os economistas compararam, controladamente, dados dos censos populacionais com dados sobre concessões para exploração de emissoras de TV. E apresentaram as evidências: o fator específico determinante das mudanças no comportamento reprodutivo foi o ato de assistir às novelas veiculadas pela TV Globo – e não a expansão da televisão comercial em geral ou qualquer outro fator.
Um outro estudo, Television and Divorce: Evidence From Brazilian‘Novelas’, publicado em janeiro de 2009, flagrou a influência dessas mesmas novelas sobre o aumento do número de divórcios e separações no Brasil. Segundo os autores da investigação, a exposição aos modelos contemporâneos de vida retratados nas novelas, a disseminação dos novos papéis assumidos pelas mulheres emancipadas e a crítica constante aos valores tradicionais induziram ao aumento do número de divórcios entre 1970 e 1991.
A consequência da queda da taxa de fecundidade é visível a olho nu – mas seu impacto futuro na vida nacional ainda não pode ser visto com tanta clareza. O impacto será, entretanto, grande – no mercado de trabalho, na previdência e assistência social e na rede de saúde.
De fato, os dados são alarmantes: entre nós, a taxa de fecundidade (que já foi de 6,3 em 1960) caiu para 2,9 em 2000. Hoje, é de 1,9. Isso significa que não estamos mais sequer repondo a população. E que entramos em marcha batida de envelhecimento. Diante destes dados, se ainda nutrimos a expectativa de ser, no futuro, uma sociedade afluente, com bom nível médio de bem-estar, só nos resta um caminho: acelerar – e muito – as taxas de crescimento da economia, e aumentar em grande escala a produtividade da mão-de-obra.
O problema é que nenhuma estrada conduzirá a este objetivo se não for pavimentada com o aumento intensivo, acelerado e constante da qualidade da educação. Já teríamos um grande problema a enfrentar se o avanço na produtividade, via incremento da qualidade da educação, sofresse somente o impacto negativo do fracasso na alfabetização, conforme adverte o Relatório do Grupo de Trabalho Alfabetização Infantil.
O aumento no número de divórcios costuma ser saudado como índice de democratização da vida social – uma “prova” da emancipação da mulher e do avanço da conquista da igualdade de gêneros. Todavia, o impacto desse fato pode tornar ainda mais íngreme o caminho para a conquista do desenvolvimento através da educação – sem falar que seus efeitos são menos visíveis do que o impacto da queda da taxa de fecundidade no perfil demográfico futuro da educação. A olho nu vê-se apenas o aumento do número de famílias chefiadas somente por uma mulher, a generalização dos casos de monoparentalidade e da formação de step families.
Mas o que não se vê a olho nu? Nada menos do que as evidências científicas consolidadas em imensos estudos longitudinais de coorte (principalmente no campo da medicina e da economia) sobre o impacto do divórcio e da monoparentalidade na educação de crianças. Cada vez mais, os resultados desses estudos mostram que filhos biológicos de homens e mulheres em casamentos estáveis e duradouros têm muito menos probabilidades de mau desempenho ou evasão escolar, gravidez precoce e fora do casamento, uso de drogas, envolvimento com crimes, distúrbios mentais, etc. E o resultado é o mesmo, quando a comparação é feita com as crianças educadas em famílias monoparentais ou em step families.
Fica a pergunta: a alienação e o autoengano não estarão impedindo nossa sociedade de perceber o potencial devastador das falhas na instrução e das falhas na educação das crianças e dos jovens brasileiros? |