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Ir.·. Eduardo Grytz
A.·.G.·.D.·.G.·.A.·.D.·.U.·.
Introdução – Significado e Simbolismo do Avental dentro da Ritualística.
Um conjunto importante de significados e símbolos relativos ao Avental do Aprendiz pode ser aprendido ainda durante a cerimônia de Iniciação pela qual passa todo Maçom.
Ao lhe ser entregue o Avental, a ele e dito que esta é a insígnia distintiva do Maçom. E que esta insígnia é mais antiga que o Tosão de Ouro ou a Águia Romana, e que é mais honrosa que a Ordem da Jarreteira, ou que qualquer outra Ordem existente. Dentro da própria seqüência do ritual, o Maçom aprende que o Avental é o símbolo da Inocência, e o laço da Amizade, e que se ele não o desonrar, o Avental também não o desonrará.
Para se entender melhor o texto trazido na Iniciação com relação às ordens e símbolos com os quais o Avental é comparado (e apresentado como mais honroso), cabe mencionar brevemente sobre cada uma: a Ordem da Jarreteira é a mais alta e mais antiga comenda britânica, tendo sido instituída pelo rei inglês Eduardo III em 1348, com o objetivo de premiar e reconhecer os que se destacavam pela lealdade à Coroa e pelo mérito militar. O Tosão de Ouro, por sua vez, foi uma ordem de cavalaria instituída em 1420 por Filipe, o Bom, Duque de Borgonha, voltada para a defesa do reino e da fé cristã, e também distintiva daqueles que a ela pertenciam. Seu nome teve base no mito do herói grego Jasão, que passa por aventuras para conquistar a pele (tosão) de um carneiro que possuía lã de ouro, e assim reconquistar para si o reinado que havia sido tomado de seu pai (possivelmente aqui esteja um outro motivo para a comparação com o Avental trazida pelo texto da Iniciação, uma vez que o Avental Maçônico originariamente era feito da pele do carneiro). Já a Águia Romana simboliza o poder e a força que o império romano teve durante o seu auge.
Uma das possíveis explicações do porque o Avental, como símbolo da Inocência, representa uma honra maior para o Maçom do que todas estas outras Ordens e símbolos é a de que, com relação a estes, todos podem ter de se curvar aos caprichos de governantes ou do poder, mas com relação a Inocência, que em si própria é uma verdadeira virtude, isto não poderá ocorrer.
Para se entender com mais profundidade o conceito de Inocência simbolizada pelo Avental do Aprendiz, vale trazer uma das definições citadas no dicionário Houaiss para a palavra: a Inocência é a qualidade de quem é incapaz de praticar o mal; é o estado daquele que não é culpado de uma determinada falta ou crime.
Ainda durante a cerimônia de Iniciação, o V.·.M.·. acrescenta que o Avental também simboliza o laço de amizade, e que jamais deverá ser usado por um Maçom ao visitar uma Loja em que haja um Ir.·. com quem tenha qualquer desentendimento. O Avental só poderá ser usado por ambos após a resolução da pendência, para que assim trabalhem com o amor e harmonia que devem caracterizar todos os Maçons. E se isto não for possível, então é recomendado que um ou ambos não participem da reunião da Loja, para que a sua harmonia não seja perturbada.
Os conceitos de Inocência e do laço de Amizade que o Avental simboliza, e que são apresentados ao Maçom durante a Iniciação, são desenvolvidos ao longo do texto do livro do Ritual do Primeiro Grau, no Rito de York, que explica com relação ao material e à cor que caracterizam o Avental, que estes tomam como base a pele do carneiro, que, desde tempos imemoriais, é reconhecido como um símbolo da pureza e também da inocência. Estes elementos servem então para lembrar o Maçom constantemente da pureza necessária em sua vida e em seus atos, que deve distingui-lo em todos os momentos, e que é uma condição para sua entrada na Grande Loja do Além, onde os abençoados descansam.
Feita uma análise inicial do significado do Avental de Aprendiz a partir do conteúdo da ritualística, pode-se procurar entender o contexto do surgimento e da evolução do simbolismo atribuído ao Avental do Aprendiz, para conhecer outros aspectos quanto a suas possíveis interpretações.
Surgimento e Evolução do Simbolismo e Significado do Avental.
Diferentes correntes de escritores Maçônicos propõem explicações alternativas com relação ao surgimento e a evolução do simbolismo e do significado do Avental Maçônico. De maneira geral, estas correntes ressaltam, entretanto, que o avental, como um paramento, tem sido utilizado por diferentes culturas ao longo da História com múltiplas finalidades e em situações diversas.
Entre suas utilizações estiveram desde a de encobrir e proteger, a de enfeitar, a de diferenciar classes sociais, e também, segundo muitos, a de servir como elemento de significado dentro de alguns ritos religiosos.
Desta forma, as diferentes explicações existentes a respeito do surgimento e da evolução do simbolismo do Avental Maçônico dependem significativamente da corrente de pensamento seguida e das premissas aceitas por estas correntes.
Alguns escritores remetem a origem do significado e do simbolismo do Avental para aspectos da religião e do misticismo, citando como referência para estes a descrição bíblica da cobertura de pele tecida por Deus para Adão após a sua descida do Paraíso Bíblico. Outros, dentro desta mesma corrente de pensamento, vinculam a origem da utilização do Avental, como paramento dotado de significado e simbolismo, às iniciações religiosas dos ritos chamados de Antigos Mistérios, que são os rituais religiosos místicos que teriam sido praticados no Egito antigo (os mistérios de Isis e Osíris), aqueles praticados pelos Persas, pelos Hindus, e, em períodos posteriores, pelos Essênios.
Albert G. Mackey, em sua obra Symbolism of Freemasonr (1), menciona que o avental formava uma parte da vestimenta dos sacerdotes israelitas. Este, com o restante do vestuário, era para ser usado “para gloria e para beleza”, e também “como emblema daquela santidade e daquela pureza que sempre caracterizou a natureza divina e a veneração que ela merece”. O autor menciona ainda que nos mistérios persas de Mitra, o candidato, tendo recebido, primeiro, a luz, é revestido com uma cinta, uma coroa, ou uma mitra, uma túnica de cor púrpura, e, finalmente, com um avental branco.
Em contraposição a esta linha de pensamento, outros autores remetem a origem do significado e do simbolismo do Avental Maçônico ao avental de trabalho utilizado pela Maçonaria Operativa, o qual teria sido adotado como insígnia, posteriormente, pela Maçonaria Especulativa.
Portanto, o Avental teria sido inicialmente uma peca do vestuário, ou protetora do vestuário, utilizada pelos Maçons Operativos para o desempenho do seu trabalho, tendo, desta forma, a sua origem nas guildas (as corporações de oficio que regulavam o trabalho artesão durante a Idade Média). Estes eram feitos, em sua função original, de pele ou de lona.
Com relação às características envolvendo o trabalho dos Maçons Operativos, o fornecimento de aventais e luvas pelo mestre aos aprendizes do oficio foi uma prática bastante comum, e aparece refletida em alguns contratos de trabalho datados de 1355 e 1430, bem como em outros mais recentes, de 1685 e 1723.
Assis Carvalho (2) citando a obra “London in the Eighteenth Century”, de Sir Walter Besant, menciona também que, por volta de 1750, a indumentária das diversas classes artesãs e operativas tinha função muito semelhante à de um uniforme, pela qual a profissão de seu portador poderia ser facilmente reconhecida. Dessa forma, assim como os maçons operativos usavam aventais semelhantes (e específicos da sua atividade), da mesma maneira, os aventais portados por carpinteiros, sapateiros, cervejeiros, ferreiros, pintores etc. também mantinham cada qual um padrão semelhante e especifico, e serviam, da mesma forma, como uma maneira para a identificação dos profissionais de cada uma destas classes profissionais.
Segundo os autores desta linha, o avental do Maçom Operativo teria sido então adotado posteriormente pelo Maçom Especulativo como um emblema, um símbolo para o trabalho, para a amizade, para a pureza e para a inocência. Como símbolo do trabalho ele refletiu, conforme escreve H.L. Haywood (3), uma profunda mudança de atitude da sociedade com relação a este, fosse manual ou intelectual, que era antes desprezado pelos nobres, mas agora considerados símbolos de uma vida honrada.
Com relação a este processo de adoção, na fase de início da Maçonaria Especulativa, o Avental utilizado, seguindo o modelo usado por Maçons Operativos em seu trabalho, era feito de uma simples e desalinhada pele de cordeiro branca, sem forro, segura por cordões que passavam pelos ombros e pelo pescoço. O Avental branco, hoje paramento exclusivo dos Aprendizes, era usado nesta época por todos os Maçons.
Entretanto, a pele de carneiro curtida, que de acordo com os autores desta corrente representava uma efetiva proteção para a roupa dos Maçons Operativos em seu ambiente de trabalho, muitas vezes prejudicava as roupas mais finas utilizadas pelos Maçons Especulativos. Assim, estes passaram a forrar a pele de carneiro com seda ou outro material, para minimizar este inconveniente. Segundo o The Freemason’s Pocket Reference Book(4), estas modificações vieram a acontecer a partir de 1731.
A partir daí então, e principalmente no último terço do século XVIII, muitos dos Aventais dos Maçons Especulativos que tiveram a pele de carneiro, rústica e sem trato, substituída por lona ou brim brancos, passaram a ser, muitas vezes, decorados ou ornamentados com emblemas, divisas e símbolos maçônicos.
Muitos deles passaram a ser pintados sob encomenda dos seus proprietários, resultando, em muitos casos, em trabalhos bastante sofisticados e muitas vezes em verdadeiras obras de arte. Nesta fase, portanto, muitos Aventais foram desenhados, pintados ou bordados ao próprio gosto. Alguns dos museus maçônicos da Europa e dos Estados Unidos hoje estão repletos destas peças. Um destes aventais, o Moira (nome dado tanto à Loja de Honra como ao Avental, em homenagem ao maçom Inglês Francis Rawdon, 2o. Conde de Moira), foi pintado por William Armfield Hobday, um pintor de retratos e miniaturista, e se converteu no avental mais famoso e mais caro da Inglaterra (5).
Dada a grande diversidade e diferença entre os Aventais usados durante esta fase, a Grande Loja da Inglaterra, em 1815, determinou a uniformização dos Aventais Maçônicos, surgindo dai os atuais Aventais ingleses, e também o Avental do Rito de York. A regulamentação manteve inicialmente os Aventais feitos de pele de carneiro, que eram então forrados, sendo estes mais tarde substituídos por tecido e por outros materiais.
Outros Significados e Simbolismos Atribuídos ao Avental Maçônico
Muitos autores desenvolveram ainda outras perspectivas com relação aos possíveis significados e simbolismos associados ao Avental Maçônico.
Com relação à importância do Trabalho, e do Avental como um símbolo que remete a ele, o escritor Plantageneta(6) escreve que “...o Trabalho é o objetivo primordial do Maçom e a função essencial do homem na sociedade... A vida nada é, a morte nada é, só o Trabalho fecunda uma, e enobrece a outra...”. Quanto à cor branca do Avental, o mesmo autor escreve que “...o ‘trabalho’ só e um castigo quando realizado com fins egoístas. Para que seja uma fonte inesgotável de alegria, é preciso que seja amado pelo que é; é preciso que ele não seja função única de causas degradantes; e este é o motivo pelo qual o Avental é branco, imaculado, e puro”.
Ao comentar também a cor do Avental, Adolfo Terrones Benitez (7) escreve que o branco não é uma cor em si, mas é a representação da Luz, dentro da qual ele próprio não aparece. Assim, a cor branca é um símbolo para a Ciência, a Sabedoria, e a Verdade (pois ela não pode ser associada a nenhuma parcialidade).
Segundo Júlio Doin Vieira (8), o Avental também pode ser um símbolo da vestimenta corpórea da alma, ou seja, aquela que ela fabrica por meio de seus próprios desejos e pensamentos. Dessa forma, conforme estes sejam puros ou impuros, assim também será o corpo físico correspondentemente transparente e branco, ou denso e opaco. O Avental, portanto, representa a vestidura feita pela própria alma, com o material do seu próprio Eu, de maneira tal que marca o seu próprio progresso.
Outros autores explicam que o Avental Maçônico, por cobrir a parte inferior do corpo, e, sobretudo, o baixo-ventre, representa a separação da sede da afetividade e das paixões, para que a parte superior do corpo, sede das faculdades da razão e do espírito, participe da maneira adequada do trabalho espiritual.
Já um grande grupo de autores utiliza a Geometria, ciência Maçônica por excelência, para suas explicações com relação aos significados e símbolos que o Avental de Aprendiz comporta. Estes autores apresentam o Avental Maçônico como uma representação do “ternário” (a abeta) que esta sobre o “quaternário” (o quadrado do Avental).
Estes dois elementos em conjunto (o triângulo e o quadrado), implicam no número sete, que por si só remete à diversas interpretações especificas (inclusive a da necessidade da presença de sete M.·.M.·. para a abertura da Loja, ou, guardando possíveis semelhanças com a doutrina judaica, às sete voltas dadas com o laço do Tefilin – filactério – que é colocado no braço, e que são feitas separando as três primeiras voltas das quatro seguintes).
O autor Adolfo Torres Benitez (9) escreve, seguindo esta linha, que o triângulo constitui a mais perfeita das figuras geométricas, pois, na seqüência do ponto, de uma reta, e de um ângulo (união de duas retas), é a primeira figura a formar a medida de área. O quadrado, dentro do qual podem ser encontrados dois triângulos, é a figura que lhe segue em perfeição. O Avental de Aprendiz, com a abeta levantada, forma a figura de um polígono de cinco lados, convertendo-se em uma figura geométrica mais avançada que o quadrado.
Neste esquema de idéias, o triângulo seria o emblema do espírito do homem, e de todas as forças suscetíveis de educação e de progresso; o quadrado seria o representante da matéria, e do corpo, e de todas as forças materiais suscetíveis de modelação e transformação; o polígono de cinco lados, formado pela maneira como o Aprendiz utiliza o seu Avental, representa então o trabalho material que o Iniciado começa a fazer, ao modelar a Pedra Bruta. A abeta abaixada indica que o espírito penetra progressivamente na matéria, e que o Iniciado caminha no sentido de dominar as suas paixões e seus vícios.
Outras explicações simbólicas que adotam a Geometria como base associam o Avental ao Triangulo de Pitágoras (que tem lados menores de dimensões três e quatro, e hipotenusa de dimensão cinco, remetendo, dessa forma, ao triângulo, ao quadrado e ao polígono de cinco lados formado pelo Avental do Aprendiz), e também, na interpretação de Luis Umbert Santos (10) ao símbolo do compasso sobre o esquadro, o compasso remetendo ao conceito do triângulo, o esquadro ao do quadrado, e o conjunto de ambos ao polígono de cinco lados formado pelo Avental de Aprendiz.
Conclusão
Em minha opinião, a partir de minhas vivências em meio a meus IIr.·. na Fraternidade Acadêmica Canaã, e dentro da Maçonaria em geral, entendo que, além de todas as conotações, significados e símbolos expostos anteriormente com relação ao Avental do Aprendiz, ele pode nos remeter também a idéia de que, como Aprendizes que somos, e, a partir de nossa Iniciação, temos a oportunidade de revisar os nossos atos particulares e em sociedade com base nos princípios Maçônicos que estamos aprendendo, e que, portanto, como Aprendizes, hoje começamos os nossos trabalhos a partir de um quadro, representado pelo Avental de Aprendiz, totalmente Branco. As cores, formas e conteúdo que iremos produzir, vestindo nossos Aventais, a partir desta fase, dependerá exclusivamente de nós e do nosso esforço em apreendermos e praticarmos corretamente os conceitos com os quais estamos tendo contato. Isto vale também para os rabiscos ou manchas que eventualmente venhamos a criar. Que possamos evitar que eles aconteçam, ou corrigi-los quando assim não conseguirmos.
Que possamos como Aprendizes e Maçons fazer com que os nossos Aventais permaneçam continuamente limpos, e que possamos nos orgulhar dele toda vez que o coloquemos perante os nossos IIr.·. em Loja.☆ |