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Henry Thomas
Assim, parece,
nasceu a religião no mundo primitivo:
“Os homens
viam suas sombras (reflexos) na água.
Viam as imagens
de seus amigos nos sonhos. Parecia-lhes que as pessoas possuíam
dois corpos: o corpo palpável e o corpo-sombra, que só
aparecia em ocasiões especiais, ficando escondido todo o
resto do tempo.
Quando alguém
morria, seu corpo era sepultado na terra; seu segundo corpo, porém,
seu corpo-sombra, continuava a visitá-los em sonhos.
O corpo-sombra
devia, portanto, ainda estar vivo em alguma parte.
Suponhamos agora
que morreu o chefe de uma tribo.
Em vida foi
um homem grandemente temido. Mas agora, depois de morto, é
ainda mais temível, porque seu corpo-sombra é invisível
e ninguém sabe quando ele pode atacar as infelizes criaturas
que, porventura, lhe caem em desagrado.
Para lhe cair
nas boas graças fazia-se, pois, necessário cativá-lo
com muitos presentes e orações.
Ele era um espírito
terrível e poderoso. Trovejava na tempestade, trazia doenças
e mortes aos que lhe desagradavam, e assegurava a vida aos recém-nascidos.
(...)
Além
disto, esse poderoso espírito-sombra controlava ainda alguma
coisa de misterioso que pairava no ar: a Sorte.
Às vezes
ela vinha ajudá-los, outras vezes, não vinha.
Um dia, dois
amigos partiam para a batalha: um morria e outro se salvava. A sorte
fora favorável a um e desfavorável a outro. Por quê?
Talvez por causa
de um ato importante que um deles praticara e o outro deixara de
fazer.
Mas quem podia
afirmar?
Ora, havia sábios
na tribo que se propunham descobrir esse mistério.
Tornaram-se
peritos na previsão da Sorte, mágicos sagrados, e
por fim sacerdotes.
Informavam o
que se devia fazer ou deixar de fazer para conseguir a graça
aos olhos do seu chefe-sombra, seu Deus, e obter um quinhão
razoável de boa sorte.
Esses sacerdotes
deviam ser rigorosamente obedecidos, pois que a desobediência
se pagava com a morte...” |