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S E Frost Jr
Um dos filósofos que procurou desenvolver uma concepção mais consistente e mais pura de Deus foi Sócrates, mas pagou o preço de ser o pioneiro, visto as massas o terem compreendido mal; julgaram que ele estava destruindo a crença nos deuses e condenaram-no à morte, pela sua impiedade.
Platão, seu discípulo, empregou a palavra Deus, num sentido muito confuso. Tem-se muitas vezes a impressão de que aos deuses ele se refere da mesma maneira que as massas, como seres que governam diferentes setores do universo. De fato, a concepção do povo acha-se espalhada em suas obras. Outras vezes, Platão parece pregar a existência de um Deus supremo, mestre e senhor de todo o universo. Em seu livro Timeu, explicou a criação do universo usando um demiurgo*, espécie de arquiteto que tomou as idéias e a matéria já criadas e, com elas, moldou o universo. Em outro ponto, vemo-lo referindo-se ao Criador como a fonte das almas.
*um intermediário entre o ser divino e o ser humano
Wikipédia, Timeu é um tratado teórico de Platão na forma de um diálogo socrático, escrito cerca 360 a.C. A obra apresenta especulações sobre a natureza do mundo físico. Participam do diálogo Sócrates Crítias, Timeu e Hermocrates.
Hesiodos Poeta grego que narrou em seus poemas. Nasceu, viveu e morreu, no século VIII a.C. em Ascra.
Isso nos leva a concluir que Platão acreditava na existência de muitos deuses, cada um dos quais julgava semelhar muito à alma humana. Entre esses deuses, acha-se a idéia de Deus, o mundo total das idéias, o demiurgo, a alma do mundo, as almas dos planetas e todos os deuses da religião popular. Nessa questão, Platão não se mostra muito claro. Talvez procurasse usar as crenças populares para pregar verdades mais profundas. Em algumas passagens somos levados a crer que não procurou explicar a formação do mundo das idéias ou da matéria, considerando-as como existentes desde o começo. Tampouco procurou explicar a origem do demiurgo. Este também existia desde o começo. Dados o demiurgo, as idéias e a matéria, Platão prossegue dizendo que o primeiro, usando idéias e matéria, criou todos os deuses, nos quais, as massas crêem.
Em outros trechos, porém, Platão fala em Deus como o criador de todas as coisas e o alvo de toda a vida humana bem como da vida de toda a natureza. Sustentando que o espírito do homem se assemelha a Deus, sendo o - corpo uma prisão da alma, escreveu que "devemos voar para longe da terra, o mais depressa que pudermos, e voar para longe é tornar-se igual a Deus". Nesse ponto, ele parece aproximar-se do misticismo.
O pensamento de Aristóteles é, nesse ponto, muito mais claro que o de Platão. O leitor lembrar-se-á de nossas exposições anteriores, onde dissemos que Aristóteles acreditava haver duas causas no universo - forma e matéria. Para ele, as formas são forças que se concretizam no mármore. Daí, tornar-se a causa do movimento. A matéria movimenta-se por causa da forma.
Na verdade, Aristóteles revela traços da velha idéia grega, de que a matéria é viva. Não só a forma, que se acha dentro da matéria, move a matéria, como esta procura tornar-se ou concretizar-se em forma. Por exemplo, o carvalho é a forma, e a bolota, a matéria. A bolota desenvolve-se, transformando-se em carvalho, concretiza a forma do carvalho que nela se acha como bolota, sem ser concretizada. No desenvolvimento, segundo Aristóteles, ela estava esforçando-se em tornar-se um carvalho. É esse o seu movimento.
Mas, antes da bolota, havia matéria e uma idéia ou a forma bolota. Essa forma estava na matéria e esta se esforçava em tomar-se uma bolota, devido à presença da forma nela. Podia-se prosseguir averiguando a série de eventos, desde a matéria mais crua, acompanhando, passo a passo, o carvalho e ir mais além, percebendo-se que, a cada ponto, existem matéria e forma, a matéria lutando para se tomar forma e sendo por esta movida. Essa série continua eternamente?
A isso Aristóteles respondeu não. No fim existe a forma pura, sem matéria, a que denominou a eterna causa motriz imóvel, a causa final de todo o movimento, de tudo o que vem a ser no universo. Deus é a causa do movimento, mas não se move. Como é isso possível?
Todos nós passamos pela experiência de conhecer uma pessoa, que considerávamos um herói e à qual desejáramos nos igualar. Moldamos nossa vida pela dela e crescemos parecendo com ela. A história imortal de Hawthorne, The Great Stone Face, constitui um exemplo dessa experiência. O menino contemplava tanto a figura da pedra que acabou parecendo com ela. Mas sua face não se alterou. Não se transformou. Dá-se o mesmo com a causa motriz imóvel de Aristóteles; faz moverem-se os homens, atrai a matéria, mas mantém-se imóvel, permanece indiferente.
Todo o universo, todos os objetos e seres nele desejam concretizar-se por causa de Deus. Assim, Deus é o centro que todas as coisas procuram alcançar; é, portanto, o principio unificador. Todas as possibilidades, todas as formas, nele se concretizam.
O Deus de Aristóteles é o ideal do filósofo, porquanto é tudo o que o filósofo se esforça em ser, a inteligência pura. |